documentação

agricultura e conservação da natureza

Logotipo Agricultura e Natureza

A Comissão Europeia publicou no J.O. C 71/11 de 23 de Março 1995 um convite para apresentação de propostas para acções gerais de sensibilização e de informação no domínio do ambiente. Na sequência desse convite, 20 Carrefours Rurais Europeus* de 7 Estados-membros elaboraram um projecto conjunto intitulado "Informação e Sensibilização dos Agentes Rurais para o Desenvolvimento Sustentável", constituído por projectos parcelares específicos para cada região. Os quatro grandes temas abordados são:

  • desenvolvimento rural integrado sustentável
  • protecção e valorização de espaços naturais de interesse ecológico
  • desenvolvimento de práticas económicas respeitadoras do ambiente
  • valorização e protecção de elementos naturais.

O Carrefour da Beira Litoral apresentou o projecto "Sensibilização dos agentes rurais para a importância da utilização racional de pesticidas e fertilizantes na preservação do meio ambiente", que consta da realização de uma exposição/debate itinerante e da edição de uma brochura intituladas "Agricultura e Conservação da Natureza"; o projecto foi realizado em parceria com a Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral, a Direcção Regional do Ambiente e Recursos Naturais do Centro, a Oikos - Associação de Defesa do Ambiente e Património da Região de Leiria, o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, o Instituto de Desenvolvimento Agrário da Região Centro (IDARC), a Comissão de Coordenação da Região Centro, a Universidade de Aveiro e a Escola Superior Agrária de Coimbra.

O público alvo deste projecto serão agricultores e suas organizações, técnicos agrícolas e autarquias.

Os objectivos são:

  • aumentar o número de agricultores envolvidos em práticas culturais respeitadoras do ambiente
  • promover a diminuição dos níveis de poluição da água, ar e solo provocada por pesticidas e fertilizantes
  • contribuir para a protecção dos recursos naturais da região
  • aumentar a qualidade dos produtos agrícolas, promovendo assim a competitividade do sector
  • proteger a saúde dos consumidores

As áreas a abranger pelo projecto são o Baixo Vouga, o Baixo Mondego, o Vale do Lis, as areias do Litoral e o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. Na maioria destas áreas pratica-se uma agricultura intensiva, nalguns casos com elevado consumo de fertilizantes e de pesticidas e associada a uma pecuária também intensiva, com grande produção de resíduos orgânicos. Sabe-se também que, duma forma geral, os agricultores dessas zonas têm um grande défice de informação e sensibilização para o seu duplo papel de utilizador e guardião dos recursos naturais.

O Baixo Mondego é uma área de elevado potencial produtivo, que só recentemente se tornou integralmente aproveitável devido a acções de emparcelamento, drenagem e rega. Isto tornou possível aos agricultores a adopção de sistemas agrícolas mais intensivos, com elevado consumo de fertilizantes e de pesticidas. Há uma elevada carga de pesticidas, e também de fertilizantes mas em menor quantidade, na água das valas e dos rios, nos meses de Abril, Maio e Junho, provenientes da cultura do arroz. Nalgumas freguesias dos concelhos da Figueira da Foz e Montemor-o-Velho, onde predomina a actividade pecuária, foram detectados, nas águas dos poços e fontes de bica, concentrações de nitratos superiores ao Valor Máximo Admissível (V.M.A.= 50 mg NO3/litro).

Na região do Baixo Vouga os problemas de poluição ambiental por actividades agrícolas são agravados pelas grandes variações sazonais do caudal do Vouga, que atinge valores mínimos no verão, altura que geralmente coincide com o período de utilização mais intensa de fertilizantes e de pesticidas. Nalguns concelhos a água para consumo humano apresenta graves problemas, em termos de qualidade, nomeadamente devido à presença de nitratos. A origem dos nitratos é imputada à ocupação urbana e à actividade agrícola e pecuária.

Nas areias do litoral, devido ao tipo de solos ligeiros (com fraca capacidade de retenção) e à intensificação pecuária e agrícola desta faixa litoral verifica-se contaminação das toalhas freáticas, geralmente bastante superficiais; detectaram-se, nalguns concelhos, teores de nitratos muito elevados nas águas subterrâneas, cujas amostras foram colhidas em poços, fontes e nascentes.

A contaminação das águas na bacia Hidrográfica do rio Lis começa no sector de montante, na região calcária. As actividades agro-pecuárias e agrícolas intensivas contribuem muito para essa poluição, devido à utilização inadequada de pesticidas e fertilizantes e inexistência de ETARs suficientes para tratamento de efluentes de suiniculturas. A situação agrava-se durante o Verão, quando a concentração de poluentes atinge valores verdadeiramente preocupantes, tornando os recursos hídricos incompatíveis com as várias utilizações, incluindo a rega.

O Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros foi criado em 1979 e abrange uma área de 38 900 ha, distribuída por sete concelhos: Alcobaça e Porto de Mós, Alcanena, Rio Maior, Santarém, Torres Novas e Ourém. O Maciço Calcário Estremenho é o mais importante conjunto calcário de Portugal.

No concelho de Rio Maior a baixa aluvionar de Alcobertas, onde está instalada uma ETAR, tem solos com elevada permeabilidade, representando a área de maior vulnerabilidade à poluição dos recursos hídricos subterrâneos do concelho. Com a instalação da ETAR pretende-se demonstrar o interesse da biodigestão anaeróbia, como processo de valorização energética dos recursos endógenos renováveis do sector da suinicultura, associado ao equilíbrio das condições ambientais e preservação dos recursos, nomeadamente os hídricos, necessários ao desenvolvimento integrado.

 

O que são fertilizantes e para que servem

As plantas, para se desenvolverem adequadamente, necessitam de ter à sua disposição quantidades adequadas de elementos nutritivos ou nutrientes.

Um solo fértil deve ter capacidade para fornecer às plantas os nutrientes que elas necessitam, de uma forma equilibrada.

Sempre que os solos não tenham essa capacidade, é necessário recorrer à utilização dos fertilizantes.

Podemos definir "Fertilizantes" como sendo substâncias que se aplicam ao solo e/ou à parte aérea da planta com o objectivo de melhorar a sua nutrição e obter maiores e/ou melhores produções.

Estas substâncias tanto podem ter uma acção directa sobre as plantas, fornecendo-lhes os nutrientes que elas necessitam, como uma acção indirecta, através da melhoria das condições do meio onde as plantas se desenvolvem, destinando-se essencialmente a corrigir os solos.

Desta forma, o fornecimento de nutrientes às plantas e a melhoria da fertilidade dos solos devem ser os objectivos principais da utilização de fertilizantes, que se subdividem em adubos e correctivos.

Os adubos são produtos que apresentam elevados teores de elementos nutritivos, sobretudo macronutrientes principais - azoto, fósforo e potássio. Actuam sobre as culturas de forma essencialmente directa, permitindo uma maior absorção dos nutrientes. Podem também fornecer macronutrientes secundários - cálcio, magnésio e enxôfre e micronutrientes - ferro, manganês, zinco, cobre, boro, molibdénio, cloro ou outros elementos benéficos.

Até há relativamente poucos anos, os adubos eram identificados apenas pelas quantidades elevadas de um ou mais macronutrientes principais; porém, hoje em dia, são usados com o objectivo principal de intervirem na alimentação das plantas, podendo não ter macronutrientes principais, mas sim macronutrientes secundários, micronutrientes, reguladores de crescimento, etc.

A principal classificação dos adubos é feita de acordo com o modo como são obtidos, sendo de considerar os seguintes tipos de adubos:

  • Adubos minerais - são obtidos industrialmente por processos químicos e subdividem-se em três grupos:
  • Adubos minerais elementares - têm um só macronutriente principal - azotados (N) (exemplos: ureia, nitroamoniacal a 20,5%, etc.), fosfatados (P) (exemplos: superfosfato a 18%, ou a 42%.) ou potássicos (K) (exemplos: cloreto ou sulfato de potássio);
  • Adubos minerais compostos - podem ter dois ou três macronutrientes principais - binários (N-P, N-K ou P-K) (exemplos: 10-20-0, 0-21-21, nitrato de potássio, etc.) ou ternários (NPK) (exemplos: 7-14-14, 10-10-10, 15-15-15, etc.);
  • Adubos minerais especiais - podem ser adubos elementares ou compostos aos quais se adicionaram macronutrientes secundários, micronutrientes, reguladores de crescimento, pesticidas, retardadores de nitrificação, etc., ou serem produtos contendo apenas macronutrientes secundários, micronutrientes ou até não conterem elementos habitualmente considerados nutrientes vegetais (exemplos: sulfato de magnésio, borax, "osmocote" - adubo revestido de libertação controlada, N-serve - com inibidor de nitrificação, ureia-form, soluções nutritivas, etc);
  • Adubos orgânicos - são produtos de natureza orgânica, provenientes de resíduos de plantas e/ou animais (exemplos: farinha de peixe - com mais de 6% de azoto e 6% de fósforo, ossos moídos - com mais de 27% de fósforo, sangue seco e pulverizado - com mais de 10% de azoto, ou outros resíduos orgânicos, desde que satisfaçam os seguintes teores: matéria orgânica ³ 50%, azoto ³ 2%, fósforo ³ 3% e total de azoto+fósforo+potássio ³ 6%).
  • Adubos minero-orgânicos - obtidos por mistura de adubos minerais com adubos orgânicos ou correctivos orgânicos, (exemplos: adubos obtidos a partir da mistura de adubos minerais e estrumes de aviário ou outros produtos com origem similar, desde que satisfaçam as seguintes condições: teor de matéria orgânica ³ 25%, total de azoto+fósforo+potássio ³ 15% e qualquer destes macronutrientes com teores superiores a 5%).

Nas características dos adubos outros factores devem ter-se em consideração, nomeadamente: a natureza e as formas químicas dos nutrientes (exemplos: o azoto pode ser amídico, amoniacal ou nítrico e o fósforo pode estar em combinações químicas solúveis em água, em ácido cítrico ou em ácidos minerais); estado físico dos adubos (sólidos, líquidos ou gasosos), reacção fisiológica dos adubos (podem ser neutros, acidificantes ou alcalinizantes), e ainda a sua salinidade, solubilidade, etc.

Os correctivos são produtos que actuam na melhoria da nutrição das plantas de modo essencialmente indirecto, através da melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos, modificando a reacção do solo (pH), o teor de matéria orgânica, as suas características físicas, etc.. Embora as substâncias utilizadas como correctivos tenham quase sempre elementos nutritivos, que podem ter algum efeito directo sobre a nutrição das plantas, a sua principal acção é exercida na melhoria da fertilidade dos solos.

A classificação dos correctivos é feita de acordo com a sua origem e com os principais objectivos visados na sua aplicação, sendo de considerar os seguintes tipos de correctivos agrícolas:

  • Correctivos minerais - destinam-se a corrigir a reacção (pH) dos solos.

Os correctivos minerais dividem-se em:

  • Correctivos minerais alcalinizantes - quando tem como objectivo fazer subir o pH dos solos ácidos (exemplos: calcário moído com ou sem magnésio, cal viva, cal apagada);
  • Correctivos minerais acidificantes - quando visam fazer descer o pH dos solos alcalinos - solos calcários, solos salinos, solos alcalinizados ou solos alcalinizados-salinos (exemplos: enxôfre e gesso).
  • Correctivos orgânicos - estes correctivos, de origem orgânica, animal e/ou vegetal, são utilizados com o objectivo de aumentar, ou pelo menos manter, o teor de matéria orgânica dos solos, a qual desempenha uma função muito importante em todos os aspectos (físicos, químicos e biológicos) da fertilidade dos solos.

Até há relativamente pouco tempo, os correctivos orgânicos eram identificados com os estrumes naturais (dejectos sólidos e camas dos gados) ou artificiais (obtidos por compostagem de detritos vegetais). Estes correctivos têm tendência a desaparecer, devido à modernização das instalações pecuárias e à falta de mão-de-obra.

Actualmente, vários outros produtos, embora ainda com aplicações mais restritas, podem e devem ser utilizados como correctivos orgânicos dos solos, não só pelo seu baixo custo e elevado interesse fertilizante, mas também pela contribuição para a melhoria do meio ambiente, através da eliminação de efluentes e resíduos orgânicos potencialmente poluentes. Entre estes são de realçar: os lixos tratados (R.S.U.-Resíduos Sólidos Urbanos, após compostagem), os esgotos tratados (lamas das ETARs), os produtos resultantes da intensificação de indústrias agro-pecuárias ("estrumes" de aviário, chorumes, etc.), de indústrias agrícolas (bagaços de uva e de azeitona. etc.) ou de indústrias florestais (aparas de madeira e casca de pinheiro trituradas, e as lamas celulósicas).

Existem ainda outros produtos que podem ser considerados correctivos orgânicos, mas em que os elevados custos restringem a sua utilização a culturas de alto rendimento - vermicompostos, turfas, algas, etc.

O enterramento das palhas e de resíduos das culturas constituem, por outro lado, importantes fontes de matéria orgânica e continuarão a ser os principais responsáveis pela manutenção do teor de matéria orgânica dos solos, embora a níveis muito baixos que é importante aumentar, com a utilização dos correctivos, para melhorar a fertilidade desses solos.

Correctivos condicionadores - destinam-se a melhorar a estrutura do solo. São produtos muito caros e o seu uso é muito restrito, apenas se verificando em estufas, jardins e relvados. (exemplos: "Krilium", silicatos coloidais-Agrosil LR, "Stiromull", "Higromull", etc.)

Os fertilizantes não se podem pois identificar exclusivamente com os adubos. Em certas condições, a adubação pode até não ser a prática mais importante da fertilização. No caso de solos com acidez elevada, para muitas culturas, o efeito da aplicação dos adubos pode estar bastante comprometido, se não se efectuar previamente uma adequada correcção da acidez desses solos com um correctivo calcário.

A utilização dos fertilizantes, como um dos meios mais eficazes para aumentar as produções, deve ter em conta, não só esse aumento da produção, mas também a qualidade dos produtos agrícolas e do meio ambiente, a fertilidade dos solos e a rentabilidade económica das culturas.

 

Efeitos da utilização incorrecta de fertilizantes

As práticas agrícolas, nomeadamente as fertilizações, tem um impacto significativo sobre o meio ambiente, em especial sobre os solos, a vegetação e a qualidade das águas, tanto das toalhas freáticas, como dos rios, lagos e orlas marinhas.

Os fertilizantes, especialmente os azotados, aumentam as produções, com custos relativamente baixos, mas o seu consumo exagerado pode acarretar graves prejuízos, tanto para o agricultor individualmente, diminuindo a rendibilidade das culturas, pois representa acréscimos de despesa e, muitas vezes, decréscimos de produção, como para a colectividade, que sofrerá as consequências duma fertilização desequilibrada sobre a qualidade dos produtos agrícolas e do meio ambiente.

O azoto é um dos nutrientes essenciais mais importantes para o crescimento das plantas sendo, para a maioria dos solos e culturas, um dos principais elementos limitantes ao seu desenvolvimento. No entanto, pelos efeitos mais visíveis com que, geralmente, a sua acção se manifesta é o nutriente que, com mais frequência, tende a ser utilizado em excesso. Por outro lado, o azoto possui um grande dinamismo no solo, característica essa que lhe dá uma forte capacidade de poluição das linhas de água, pois todas as formas em que o azoto pode ser aplicado ao solo acabam por se transformar em nitratos, que são facilmente arrastados pelas águas de lixiviação.

Os problemas de poluição causados por fertilizantes reflectem-se, essencialmente, sobre o ambiente, sobre a saúde humana, sobre a qualidade dos produtos agrícolas, sobre os solos.

Em relação ao ambiente, a poluição das águas com nitratos é a mais difícil de eliminar, assumindo particular significado o facto dos nitratos provocarem o crescimento excessivo de plantas, em meios onde são indesejáveis, nomeadamente em rios e lagos, contribuindo para a sua "eutrofização" e alterando, deste modo, o seu equilíbrio ecológico global. No entanto, tem de reconhecer-se que para a eutrofização também contribuem outros elementos, nomeadamente o fósforo, o qual, além de ser veiculado pelos fertilizantes é principalmente introduzido nas águas através de detergentes e de pesticidas e está presente nos esgotos urbanos que não têm tratamento. Os fosfatos são os maiores responsáveis pelo crescimento das algas, cuja decomposição provoca uma redução do oxigénio do meio, provocando a morte de peixes e conduzindo à destruição lenta dos ecossistemas aquáticos.

Relativamente à saúde humana, a acção dos nitratos manifesta-se através da água e dos alimentos consumidos. Os nitratos em si não são tóxicos e só se tornam perigosos se ocorrer a sua conversão em nitritos, dando origem a uma doença denominada metamoglobinénia, cianose ou "doença azul". Esta conversão pode ocorrer, com uma certa facilidade, em crianças com menos de um ano de idade, que consomem água ou alimentos ricos em nitratos, sendo especialmente perigosos para mulheres grávidas e para crianças. A maioria dos casos de toxicidade detectados, em vários países europeus, teve origem em águas captadas em poços particulares, mal posicionados em relação a reservatórios de excrementos humanos e animais, tendo ocorrido com águas que continham mais de 100 mg de NO3/litro.

A seiva das folhas de alguns produtos hortícolas contêm teores elevados de nitratos, mas o facto das hortícolas serem ricas em Vitamina C (que é um anti-oxidante considerado anti-cancerígeno), dificulta a sua conversão em nitritos. Nas folhas de algumas destas plantas pode ocorrer, em certas condições de cultivo, a conversão dos nitratos em nitritos, o que as torna perigosas para consumo humano, especialmente quando crescem em meios com pouca insolação.

A Organização Mundial de Saúde estabeleceu dois limites para o teor de nitratos na água de consumo humano: o limite recomendado de 50 mg de NO3.L-1 e o limite máximo de 100 mg de NO3.L-1 (22,6 mg.L-1 de N-NO3).

A Directiva Comunitária nº 778/80 de 15 de Julho de 1980, impõe um limite de 50 mg.L-1 de nitratos na água potável.

A Directiva do Conselho 91/676/CEE, relativa à protecção das águas contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola, prevê a identificação das águas poluídas ou susceptíveis de serem poluídas e das zonas vulneráveis, entendidas como as que drenam para aquelas águas, contribuindo para a sua poluição. A elaboração do(s) Código(s) de Boa Prática Agrícola e de programas de acção para as zonas consideradas vulneráveis são algumas das medidas preconizadas naquela Directiva.

A poluição das águas pelo azoto, para além de ter como causa mais provável o uso excessivo dos adubos azotados, pode também resultar da aplicação de correctivos orgânicos ricos naquele nutriente ("estrumes" de aviário, fracção sólida dos chorumes, lamas de ETAR).

Para além das consequências prejudiciais sobre o ambiente e a saúde humana resultantes da acumulação excessiva de nitratos, os efeitos da fertilização azotada podem-se reflectir sobre a qualidade dos produtos, no caso da sua aplicação ser desequilibrada ou excessiva em relação aos outros nutrientes.

O azoto continua a ser o nutriente que mais frequentemente é responsabilizado pela diminuição de qualidade dos produtos agrícolas, por ser utilizado pelas plantas em "consumo de luxo" e por ser em muitos casos aplicado em quantidades excessivas.

A título de exemplo podem citar-se: a diminuição do grau alcoólico dos vinhos, do teor de amido da batata e de açúcar na beterraba sacarina, de antocianinas (parâmetro de qualidade da uva de mesa), das vitaminas B12 e C, e de lisina, etc.; redução do poder de conservação de frutas e legumes, acumulação nos alimentos de produtos tóxicos, tais como excesso de nitratos, amidos, ácido oxálico e outros produtos potencialmente tóxicos à saúde humana e dos animais, etc. Por outro lado, a absorção excessiva de azoto, tende a tornar as plantas mais sensíveis à acama e ao ataque de pragas e doenças, obrigando a um maior uso dos pesticidas.

No entanto, alguns dos outros nutrientes tendem a contrariar a acção negativa do excesso de azoto. É o caso, por exemplo, da influência positiva do fósforo no teor de amido da batata, do potássio na sanidade global da planta, no aumento do teor alcoólico do vinho e no poder de conservação da batata, etc.

Alguns correctivos orgânicos, nomeadamente as lamas das ETAR, poderão levar as plantas a absorver elementos, em especial metais pesados, que tornem esses produtos vegetais perigosos para a saúde. No entanto, os estudos efectuados sobre algumas lamas, mostram que muitas delas não têm esse perigo, se forem correctamente utilizadas.

Alguns resíduos orgânicos, quando não sejam previamente compostados podem contaminar os produtos vegetais através da transmissão de agentes patogénicos.

Os adubos e os correctivos, em especial os correctivos orgânicos, podem causar diversos fenómenos de poluição do solo, alguns dos quais podem ser transferidos para as águas, para os produtos vegetais e mesmo para atmosfera.

No entanto, com os conhecimentos actuais tais fenómenos podem ser evitados, através de uma correcta utilização dos correctivos e das quantidades e tipos de adubos adequados.

A poluição química dos solos manifesta-se mais frequentemente através da salinização secundária (acumulação excessiva de nutrientes), modificações da reacção do solo (pH), desequilíbrios nutritivos e acumulação de micronutrientes e de metais pesados.

A salinização causada pela acumulação de azoto pode ser evitada recorrendo ao fraccionamento das aplicações, aos adubos de libertação gradual de azoto, e à aplicação, juntamente com os adubos azotados, de produtos que retardam a nitrificação.

Este tipo de poluição é mais associada ao uso dos adubos, mas também pode aparecer quando se apliquem excessivas quantidades de resíduos ricos em nutrientes, como é o caso da fracção sólida dos chorumes, dos "estrumes" de aviário, dos resíduos sólidos urbanos, das lamas dos tratamentos dos esgotos, etc.

A acumulação de micronutrientes tende a causar toxicidade nas plantas e é devida ao exagero da aplicação de adubos especiais com microelementos e de alguns resíduos orgânicos, como lixos compostados, que contêm quantidades relativamente elevadas de micronutrientes.

A acumulação de metais pesados é a forma de poluição mais grave, pois os seus efeitos fazem-se sentir na quantidade das produções e na qualidade sanitária dos produtos. Os fertilizantes que mais podem introduzir no solo os metais pesados são determinados resíduos orgânicos que se obtêm no tratamento de efluentes sólidos e líquidos dos aglomerados populacionais. No entanto, a utilização de tais resíduos tem bastante interesse, não só pelos elevados teores de matéria orgânica, mas também pelas quantidades apreciáveis de elementos essenciais às plantas.

Em Portugal, em termos gerais, o problema da poluição associada à utilização dos fertilizantes, não causa ainda grandes preocupações, reflexo dos baixos consumos unitários de nutrientes. O consumo médio unitário de adubos (expresso em kg/ha de N + P2O5 + + K2O), é cerca de um terço (1/3) da média da Europa e pouco mais de um décimo (1/10) do que se verifica em alguns países, como é o caso da Holanda.

Existem problemas localizados, em particular em zonas de agricultura intensiva (estufas e algumas zonas de regadio) em que se cometem excessos na aplicação de adubos, zonas de descarga não controlada de alguns efluentes, etc.

Também já há casos particularmente graves de poluição química dos solos, nomeadamente em estufas, devido à aplicação excessiva de adubos azotados, potássicos e com micronutrientes, e por vezes à rega com água de má qualidade.

Existem também diversos focos de poluição causada pela utilização não controlada dos efluentes, nalgumas regiões de pecuária intensiva nomeadamente junto às suiniculturas e vacarias.

Os problemas existentes têm de ser identificados e estudados, com um conveniente levantamento das situações existentes, ao nível dos solos e das águas que correm maiores riscos de sofrerem poluição, usando critérios de amostragem, metodologias de análise e parâmetros de avaliação comparáveis com os resultados que se obtêm noutros países.

As soluções adequadas deverão ser estudadas em conjunto, num processo em que participem todos os intervenientes, nomeadamente os agricultores e as suas associações, as autarquias, as empresas e indústrias ligadas à agricultura e as entidades oficiais da área da agricultura e do ambiente (Direcções Regionais, Universidades, Institutos).

 

Normas Técnicas para uma correcta utilização dos fertilizantes

Os fertilizantes, tanto os adubos como os correctivos, são produtos extremamente importantes para a agricultura; no entanto, só o conhecimento da fertilidade do solo, através da análise das terras, permitirá fazer as correcções do solo e as adubações das culturas duma maneira racional, eficiente, económica e ambientalmente correcta.

As análises de amostras foliares (plantas ou partes das plantas), não substituindo as análises de terra, também permitem diagnosticar o estado de fertilidade dos solos, pois indicam se as plantas estão adequadamente alimentadas, e são especialmente importantes para culturas arbóreas e arbustivas (pomares, vinhas, etc.).

As amostras de terra e de plantas para análise devem ser colhidas de acordo com normas específicas de colheita de amostras, que poderão ser obtidas nos Serviços Regionais de Agricultura, nas Cooperativas ou nos Laboratórios que executam as análises.

Os laboratórios de análises de terra e de análises foliares, para além das determinações analíticas, procedem à interpretação dos resultados e fazem as respectivas recomendações de fertilização.

As recomendações de fertilização são feitas com base em ensaios de fertilização realizados durante muitos anos de estudo em muitas regiões do País.

Esses ensaios, em que se estudam os problemas de fertilidade dos solos ou se comparam várias modalidades de fertilização, têm por objectivo pôr à disposição dos agricultores a informação técnico-científica que lhes permita praticar uma fertilização racional.

Através da fertilização racional procura-se aplicar correctamente ao solo, nas épocas mais apropriadas e sob as formas mais adequadas os nutrientes que nele escasseiam face às necessidades da cultura.

A fertilização racional é uma fertilização por medida, indispensável à obtenção do melhor rendimento económico da produção agrícola (em quantidade e em qualidade) e à preservação da qualidade do ambiente.

A prática da fertilização racional exige a resposta, com segurança às seguintes questões:

É necessário proceder à correcção dos solos aplicando calcário (calagem) ou matéria orgânica? No caso de ser necessário, quais as quantidades a aplicar e quais os correctivos mais adequados?

  • Que nutrientes é necessário aplicar ao solo e/ou à cultura e quais as quantidades mais adequadas?
  • Quais os adubos que tecnicamente serão mais favoráveis para aplicar esse nutrientes, tendo em conta as condições de solo, de clima e da própria cultura?
  • Quais as épocas mais apropriadas para proceder à sua aplicação (fraccionamento das adubações)?
  • Quais as técnicas de aplicação a utilizar, para obter uma melhor eficácia no aproveitamento desses nutrientes pela cultura?

As recomendações de fertilização são baseadas nas necessidades de nutrientes das culturas relativamente ao nível de produção que se espera atingir (produção esperada, que deve ser considerada com realismo, em função das condições culturais - tipo de solo, disponibilidade de rega, etc. e das potencialidades de produção das variedades) e por outro lado na disponibilidade do solo em nutrientes (análise de terra). A partir do balanço necessidades da cultura - disponibilidades do solos poderão determinar-se quais os nutrientes e respectivas quantidades que será necessário fornecer ao solo ou à planta para garantir uma adequada nutrição da cultura.

As recomendações de fertilização feitas pelos laboratórios poderão ser localmente adaptadas ou complementadas com o contributo dos técnicos dos serviços regionais de agricultura, em função dum conhecimento mais completo das realidades locais e do próprio agricultor.

Para algumas culturas já existem tabelas de fertilização, que indicam as quantidades de azoto, fósforo e potássio a utilizar, mediante os resultados da análise de terra e a produção esperada para essa cultura, que, pela sua utilidade, poderão servir de base para a adubação, embora, sempre que necessário, devam ser adaptadas aos condicionalismos locais.

A fertilização racional das culturas tem pois como objectivo atingir o máximo rendimento e evitar excessos de adubação que poderão causar graves prejuízos económicos e ambientais, com especial incidência na poluição das águas, com nitratos de origem agrícola.

Para evitar a poluição das águas, causada principalmente pelos nitratos (que significa perdas de azoto para as culturas e arrastamento para as águas), são também preconizadas, entre outras, as seguintes medidas que irão constituir o Código(s) de Boa Prática Agrícola:

  • Manter o solo revestido, durante as épocas de maiores perdas de azoto (chuvosas), com culturas de elevado poder depurador que absorverão o excesso de azoto do solo, purificarão as águas e darão origem a produtos com interesse económico ou que poderão ser utilizados para enterrar e aumentar a fertilidade dos solos;
  • Elaborar planos de fertilização para cada exploração agrícola e um registo da utilização dos fertilizantes;
  • Gerir melhor a utilização do solo, adoptando sistemas de rotação de culturas;
  • Definir os períodos em que a aplicação de fertilizantes aos solos não é apropriada;
  • Definir o armazenamento e manuseamento de efluentes de explorações agro-pecuárias;
  • Na adubação azotada das culturas, passar a considerar as quantidades de azoto presentes no solo, no momento em que as culturas o começam a utilizar significativamente, assim como o azoto fornecido através da mineralização das reservas de azoto orgânico do solo e o proveniente dos produtos orgânicos aplicados (estrumes, chorumes, etc.);
  • A adubação azotada deve ser estritamente a necessária e suficiente para atingir uma determinada produção esperada, e o fósforo e o potássio devem ser aplicados de acordo com a análise da terra.

 

Eficiência económica da fertilização racional

O principal objectivo da fertilização racional é permitir que o agricultor ganhe mais dinheiro e salvaguarde os seus campos agrícolas para o futuro.

Não interessa apenas aumentar a produção, mas sim que esse aumento seja compensador, isto é, que dê lucro. Este facto tem sido verificado em inúmeros campos demonstrativos realizados pelos serviços regionais de agricultura, em que se constatou que as fracas produções obtidas com as fertilizações incorrectas praticadas por alguns agricultores, aumentavam consideravelmente desde que se utilizasse uma fertilização racional baseada nos resultados da análise de terra.

O exemplo seguinte ilustra bem o aumento do lucro verificado com uma fertilização racional:

Exemplo de uma fertilização racional
Campo com fertilização praticada pelo agricultor
750 kg/ha de nitrato de amónio 20,5% (153,7 kg/ha de Azoto)
Custo da adubação/ha 22 350$00
Produção de milho (kg/ha) 3 000 kg
Valor da produção (48$00/kg de milho) 144 000$00
   
Campo com fertilização racional, baseada na análise de terra
Correcção da acidez do solo
6 000 kg/ha de calcário 27 000$00
700 kg/ha de adubo composto 7-14-14, em fundo 26 740$00
(49 kg/ha de azoto + 98 kg/ha de fósforo + 98 kg/ha de potássio)
500 kg/ha de nitrato de amónio 20,5%, em cobertura 14 900$00
(102,5 kg/ha de Azoto)
Custo total da adubação/ha 68 640$00
Produção de milho (kg/ha) 6 500 kg
Valor da produção/ha
(6 500 Kg x 48$00/kg de milho) 312 600$00

Aumento do custo da adubação = 68 640$ - 22 350$ = 46 290$
Aumento de rendimento = 312 600$ - 144 000$ = 168 600$
Lucro = 168 600$ - 46 290$ = 122 310$

Pelo facto de ter feito uma fertilização racional, o agricultor teve um aumento do lucro de cerca de 122 contos/ha, devido à correcção do solo e às aplicações de fósforo e de potássio, de acordo com a análise de terra. Para além disso diminui-se a carga destas substâncias nos solos e linhas de água, obtendo-se um ambiente mais saudável.

A determinação das quantidades mais adequadas de aplicação dos fertilizantes é, geralmente, feita com base em ensaios de campo, onde a cultura cresce em talhões que recebem níveis crescentes de aplicação dos fertilizantes, obtendo-se as produções correspondentes à resposta da cultura.

A apreciação da eficiência económica da fertilização é feita com base na resposta da cultura, ou seja nas produções unitárias obtidas (geralmente, quilogramas por hectare), e no respectivo lucro, que é calculado através da diferença entre os custos da fertilização (preço do fertilizante, transporte e distribuição) e o valor resultante da quantidade e preço de venda da produção correspondente.

O lucro máximo, a que também se chama óptimo económico, corresponde à quantidade máxima do nutriente aplicado, acima da qual os aumentos de produção não pagam os aumentos dos custos da aplicação dos fertilizantes.

Para obter o máximo rendimento da adubação, o agricultor não deve ultrapassar o nível de adubação correspondente ao óptimo económico, que é determinado através dos ensaios efectuados em diferentes condições de solo, de clima e culturais.

A vasta experimentação realizada em diversos países, mostra que a fertilização, desde que seja racional, conduz a resultados económicos favoráveis.

Em Portugal, os numerosos dados de que, sobretudo para os adubos, já se dispõe, evidenciam uma elevada rendibilidade da adubação nas culturas mais representativas, a qual se traduz, em média, pela obtenção de cerca de 4$00 por cada 1$00 gasto na aplicação de adubos, desde que se tenha feito uma correcta utilização dos outros factores de produção (sementes, rega e drenagem, tratamentos fitossanitários, etc.).

Bibliografia consultada

  • A. S. Videira da Costa (1988) - Elementos sobre fertilidade do solo e fertilização - Ed. Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação. - 106 p.
  • J. Quelhas dos Santos (1991) - Fertilização - Fundamentos da utilização dos adubos e correctivos - Ed. Publicações Europa América - 441 p.
  • J. Quelhas dos Santos (1995) - Fertilização e Poluição - Reciclagem Agro-Florestal de Resíduos Orgânicos - Ed. do autor - 192 p.
  • J. Quelhas dos Santos (1996) - O uso dos fertilizantes e perspectivas da sua evolução - Texto apresentado no Encontro "A utilização racional dos fertilizantes em Portugal", efectuado em 20/11/96 na Escola Superior Agrária de Coimbra - 17 p.
  • Laboratório Químico-Agrícola Rebelo da Silva (1996) - Código de Boas Práticas Agrícolas, visando a protecção das águas contra a poluição com nitratos (em preparação) - Documento de trabalho resumido.
  • M. Isabel Magalhães-Martins (1994) - A fertilização azotada do milho em solos do Baixo Mondego - Contribuição para o seu estudo. - Tese de Mestrado - Ed. Instituto Superior de Agronomia - 203 p.

 

Tratamento e utilização de efluentes

As crescentes exigências quanto à defesa da qualidade do ambiente impõem que se proceda ao tratamento dos resíduos e efluentes orgânicos provenientes de diversas actividades, nomeadamente os que são produzidos pelos aglomerados populacionais urbanos, pelas explorações agro-pecuárias intensivas (vacarias, suiniculturas e aviculturas) e pelas indústrias agro-alimentares e florestais.

Estes resíduos e efluentes se forem lançados nos meios receptores naturais serão geradores de problemas ambientais e provocarão a contaminação desses meios, com graves implicações, possivelmente irreversíveis, para a fauna e flora dos mesmos.

Por este motivo, é necessário, e nalguns casos obrigatório, de acordo com a legislação já existente, que se proceda ao tratamento destes subprodutos, com a finalidade de diminuir, ou mesmo eliminar, a sua carga poluente.

Nos casos em que se pretenda utilizar como fertilizante efluentes suínicolas que não foram sujeitos a tratamento, deverão respeitar-se as seguintes medidas para minimizar os riscos de transmissão de doenças:

  • Antes de aplicados no solo, os efluentes suinícolas deverão ser armazenados durante um período mínimo de quatro semanas.
  • Após o espalhamento de efluentes nos terrenos agrícolas deverá ser vedada a entrada a animais nas quatro semanas seguintes.
  • Deverão aplicar-se reduzidas taxas de efluentes em pastagens e solos agrícolas.
  • A aplicação dos efluentes deverá fazer-se antes das sementeiras ou então na primeira fase de crescimento dos vegetais.

Para os efluentes que têm que ser sujeitos a tratamento, existem vários tipos de tratamentos, adaptáveis aos diferentes tipos de resíduos e efluentes orgânicos, dependendo a sua escolha dos parâmetros de caracterização do efluente.

Os tratamentos dos efluentes subdividem-se em tratamentos aeróbios (com arejamento) e tratamentos anaeróbios (sem oxigénio).

Os tratamentos de digestão anaeróbia têm sido utilizados essencialmente em efluentes de suinicultura e em bovinicultura intensivas, com vista à produção de biogás, o que poderá ter bastante interesse na produção de energia eléctrica para as próprias explorações agro-pecuárias.

O esquema da página anterior mostra o tratamento integrado e aproveitamento com valorização dos efluentes de suinicultura, em que se aplica a digestão anaeróbia do efluente bruto com produção de biogás (fermentação metânica), a fracção sólida resultante do tratamento utiliza-se como fertilizante e a fracção líquida terá interesse na rega e em hidroponia.

A maior desvantagem apontada ao processo de digestão anaeróbia é não permitir a completa estabilização de matéria orgânica, sendo necessário recorrer a tratamentos complementares (lagunagem, compostagem).

No processo anaeróbio a maior parte da matéria orgânica é convertida em metano e no processo aeróbio em biomassa.

Os tratamentos aeróbios aplicam-se tanto aos resíduos sólidos como aos efluentes líquidos.

A compostagem é um processo aeróbio que pode ser aplicado ao tratamento de vários resíduos, nomeadamente aos resíduos sólidos urbanos (RSU), às lamas de ETAR e aos "estrumes" de aviário, originando produtos com elevado valor fertilizante, que poderão mesmo vir a ser comercializados como correctivos ou adubos orgânicos. Os "estrumes" de aviário e as lamas de ETAR poderão ser utilizados na compostagem de outros resíduos (detritos florestais, madeiras de poda, etc.) substituindo a habitual aplicação de azoto, e permitindo obter compostos mais ricos noutros nutrientes e de grande interesse fertilizante.

Nos tratamentos dos efluentes por via aeróbia é de realçar o processo das lamas activadas, em que se forma uma massa activa de microorganismos capazes de acelerar o processo oxidativo de estabilização aeróbia dos efluentes. Este é o processo utilizado na maioria das Estações de Tratamento das Águas Residuais (ETAR). Da depuração das águas residuais (esgotos domésticos, efluentes de indústrias celulósicas ou agro-alimentares, etc.) resultam grandes quantidades de lamas que contêm em si a grande maioria dos agentes de poluição que previamente existiam nas águas. Por este motivos, estas lamas terão que ser sujeitas a uma série de tratamentos para reduzir o seu volume e a sua carga poluente, especialmente em relação aos agentes patogénicos. A composição das lamas de ETAR pode variar imenso, em função do tipo de efluente que as originou. Por este motivo, a possibilidade duma lama ser utilizada como fertilizante e as suas condições de aplicação dependem da sua composição, avaliada por intermédio de análises laboratoriais, em particular naqueles parâmetros que maior influência possam exercer na relação fertilização-poluição. Existe legislação que regulamenta as condições de aplicação das lamas de ETAR.

Em resumo, os principais objectivos do tratamento dos efluentes e resíduos orgânicos são: i) eliminar a sua fracção gasosa, responsável pela emissão de maus cheiros e de gases poluentes para a atmosfera, ii) obter uma fracção liquida que esteja de acordo com os parâmetros legais, de modo a poder ser descarregada nos meios receptores naturais, e iii) obter uma fracção sólida com um volume reduzido (através do espessamento, estabilização e desidratação), sem carácter poluente (através de compostagem) e com elevada concentração de matéria orgânica e de nutrientes, de modo a poder ser usada como fertilizante.

Na generalidade, dado que todos estes resíduos contêm matéria orgânica e, nalguns casos, quantidades apreciáveis de nutrientes vegetais, e uma vez que os solos têm poder depurador, a sua reutilização agrícola ou florestal, para além do efeito fertilizante, pode constituir um complemento, ou uma alternativa, a outras formas de tratamento. Sendo a maioria dos nossos solos bastante carenciados em matéria orgânica, o aproveitamento destes produtos como fertilizantes pode constituir uma solução alternativa à sua eliminação, com a vantagem de contribuir para aumentar a fertilidade dos solos e reduzir a aplicação de fertilizantes convencionais.

No entanto, tratando-se de "novos fertilizantes" devem ser utilizados com bastante precaução, seguindo as recomendações técnicas disponíveis e após terem sido efectuados estudos sobre as suas condições de aplicação, para se evitar que, se houver algum efeito poluente, este seja transferido para o solo e posteriormente para a água e para os produtos agrícolas.

 

O que são pesticidas e para que servem

Os pesticidas desempenham um papel muito importante na manutenção do bom estado sanitário das culturas. No entanto, são produtos tóxicos e perigosos que se usam para controlar os inimigos das culturas (insectos, ácaros, ratos, lesmas, caracóis, etc.), doenças e infestantes (ervas daninhas).

Na designação de pesticidas estão incluídos muitos tipos de produtos com acções diferentes:

  • insecticidas - que se destinam a combater insectos
  • fungicidas - que combatem fungos
  • herbicidas - cuja acção se exerce contra infestantes
  • acaricidas - que combatem ácaros
  • moluscicidas - que usam contra lesmas e caracóis
  • nematodicidas ou nematicidas - que actuam contra nemátodos
  • rodenticidas - que combatem ratos

Segundo o seu modo de acção, os pesticidas podem ser divididos em dois grandes grupos:

  • de contacto - os que, quando aplicados sobre as plantas se mantém à sua superfície, pelo que são facilmente arrastados pela água da chuva. Além disso, não têm acção sobre os órgãos das plantas formados após o tratamento.
  • sistémicos - os que são absorvidos pelas folhas ou pelas raízes, sendo depois transportados através da seiva para toda a planta. Deste modo ficam ao abrigo da acção de lavagem da água da chuva e protegem os órgãos formados pouco tempo depois do tratamento. Todavia, o risco de aparecimento de inimigos das culturas resistentes aos pesticidas é muito maior no caso dos produtos sistémicos do que nos de contacto.

A aplicação dos pesticidas pode ser feita de várias formas, consoante a sua formulação:

  • pulverização - executa-se com pulverizadores e usa-se para aplicar pesticidas comercializados nas formulações de solução, suspensão, emulsão, concentrado para emulsão, pó molhável, etc.;
  • polvilhação - faz-se com polvilhadores e utiliza-se no caso dos pesticidas cuja formulação seja o pó polvilhável;
  • distribuição de grânulos - efectua-se com distribuidores apropriados para este fim e destina-se aos pesticidas comercializados na formulação de grânulos.

 

Efeitos de uma utilização incorrecta e exagerada de pesticidas

Várias situações conduziram ao agravamento das condições fitossanitárias de muitas culturas:

  • o incremento do tráfego humano e dos produtos vegetais, que acelerou a dispersão dos inimigos das culturas das suas áreas de ocorrência natural para outras partes do mundo, onde não existiam auxiliares ( organismos que combatem naturalmente os inimigos das culturas) que travassem a sua multiplicação;
  • a tentativa de obter produções cada vez mais elevadas que resultou, frequentemente, no estabelecimento de culturas mais susceptíveis aos inimigos;
  • o aumento da monocultura e o abandono de práticas culturais como as rotações de culturas.

A tendência para recorrer a pesticidas aumentou, o que, aliado à agressividade do marketing comercial, levou ao seu uso excessivo e inapropriado por parte de populações rurais que não estavam, e ainda não estão, preparadas para a sua utilização cuidadosa.

Os efeitos que essa utilização incorrecta e exagerada pode provocar são:

  • Aparecimento de fenómenos de resistência dos inimigos das culturas aos pesticidas, o que faz com que estes produtos percam a acção, motivando um aumento das doses ou a aplicação de produtos mais fortes;
  • Destruição de organismos úteis não visados pelos tratamentos fitossanitários, como polinizadores (abelhas, etc) e auxiliares;
  • Intensificação do ataque de certos inimigos das culturas, como consequência dos fenómenos de resistência e da destruição de organismos úteis;
  • Por vezes, a redução das populações dos inimigos alvo do tratamento, aliada a fenómenos de resistência e à destruição de auxiliares, faz com que outros inimigos, que até então não causavam problemas, aumentem o seu número e passem a causar prejuízos;
  • Fitotoxicidade para a cultura, ou seja, "queima" das plantas cultivadas;
  • Poluição do ambiente: contaminação de solos, de redes de água e dos próprios produtos agrícolas;
  • Perigos para a saúde humana, quer directamente através do manuseamento dos pesticidas e dos próprios produtos agrícolas tratados, quer indirectamente, por exposição a ambientes que foram sujeitos a tratamentos fitossanitários;
  • Aumento dos custos de produção.
  • Acumulação destas substâncias tóxicas em alimentos e nos solos, diminuindo a qualidade dos produtos.

 

Normas técnicas para uma correcta utilização dos pesticidas

Para evitar os efeitos negativos da aplicação de pesticidas dever-se-ão seguir várias regras, nomeadamente:

  • Aplicar os pesticidas apenas quando realmente necessários, devendo-se sempre que possível recorrer a outros meios de luta disponíveis;
  • Identificar o inimigo que se pretende evitar ou combater;
  • Saber escolher o pesticida adequado, que tem de estar homologado, não só para a cultura, mas também para o inimigo em causa;
  • Ler sempre o rótulo da embalagem do pesticida antes de o aplicar; contem informações valiosas acerca do fim a que se destina (cultura e inimigo), das quantidades a aplicar e do modo de emprego. No rótulo aparece também o símbolo toxicológico, que indica se o produto é mais ou menos perigoso para o Homem e para os animais (o que não tem nada a ver com a sua acção sobre os inimigos das culturas para o qual é indicado) e ainda as precauções que são necessárias;
  • Não usar quantidades de produto superiores às indicadas no rótulo, que não aumentam a acção contra o inimigo, mas podem causar danos à cultura e deixar as produções envenenadas;
  • Não fumar, não comer e não beber durante o manuseamento dos pesticidas;
  • Usar o material de protecção indicado no rótulo (luvas, etc);
  • Não aplicar os pesticidas com vento ou contra o vento, para evitar que o aplicador seja igualmente pulverizado ou que os produtos sejam arrastados para as culturas vizinhas;
  • Ter o material de aplicação em bom estado, para que o tratamento seja bem feito, sem perdas nem gastos desnecessários de produtos, que podem contaminar o ambiente e o próprio aplicador;
  • Tomar banho e lavar o vestuário usado, após a aplicação de pesticidas, pois podem penetrar através da pele;
  • Guardar os pesticidas nas suas próprias embalagens, que se encontram devidamente identificadas e em local seguro, fora do alcance de crianças e afastados dos alimentos;
  • Não despejar restos de produtos ou de caldas nem lavar os utensílios usados perto dos cursos de água;
  • Respeitar o intervalo de reentrada, ou seja, o período de tempo que pessoas e animais devem esperar, após a aplicação do pesticida, até poderem entrar no campo de cultura;
  • Respeitar o intervalo de segurança, isto é, o intervalo de tempo que deve decorrer desde a última aplicação do pesticida até à colheita da produção.

 

Nível económico de ataque

O nível económico de ataque consiste na "intensidade de ataque de um inimigo da cultura a que se devem aplicar medidas limitativas ou de combate para impedir que a cultura corra o risco de prejuízos superiores ao custo das medidas de luta a adoptar, acrescidos dos efeitos indesejáveis que estas últimas possam provocar ". Ou seja, não interessa efectuar um tratamento quando o que se gasta com a compra do pesticida e a sua aplicação é superior ao que se ganha com o aumento de quantidade e/ou qualidade da produção devido a essa aplicação.

Só quando o nível económico de ataque é atingido se deve recorrer a um meio de luta, que não tem necessariamente de ser químico.

  • Centros europeus de informação e animação rural, que constituem uma rede coordenada e apoiada pela DG X da Comissão Europeia.
  • Amaro, P & Baggiolini, M (Ed.) (1982) Introdução à protecção integrada. FAO/DGPPA, Lisboa, 276 pp.

Criado em: 2002-02-23 / Actualizado em: